Minha alma escorre como em um rio de palavras. Sou uma metáfora que ressoa como um gemido de uma Fênix em pedaços. Há uma chama que consome minha imagem, meu reflexo e meu aroma. Estou perdido, sem memória possivel, desaparecido e pulsando. Não há mais sóis nem templos de ilusão. Existo como um EU, que se reconstroi entre cacos e silêncio.
Terça-feira, Fevereiro 28, 2006
Chavela Vargas
LA LLORONA
Interprete: Chavela Vargas
No se que tienen las flores, llorona, las flores del camposanto.
No se que tienen las flores, llorona, las flores del camposanto.
Que cuando las mueve el viento, llorona, parece que están llorando.
Que cuando las mueve el viento, llorona, parece que están llorando.
Ay de mi, llorona. Llorona tu eres mi ...
Ay de mi, llorona. Llorona tu eres mi ....
Me quitarán de quererte, llorona, pero de olvidarte nunca.
Me quitarán de quererte, llorona, pero de olvidarte nunca.
A un santo Cristo de fierro, llorona, mis penas le conte yo.
A un santo Cristo de fierro, llorona, mis penas le conte yo.
Cuales no serían mis penas, llorona, que el Santo Cristo lloró.
Cuales no serían mis penas, llorona, que el Santo Cristo lloró.
Ay de mi, llorona. Llorona del campo lirio.
Ay de mi, llorona. Llorona del campo lirio.
El que no sabe de amores, llorona, no sabe lo que es martirio.
El que no sabe de amores, llorona, no sabe lo que es martirio.
Dos besos llevo en el alma, llorona, que no se apartan de mi.
Dos besos llevo en el alma, llorona, que no se apartan de mi.
El último de mi madre, llorona, y el primero que te di.
El último de mi madre, llorona, y el primero que te di.
Ay de mi, llorona. Llorona, llevame al rio.
Ay de mi, llorona. Llorona, llevame al rio.
Tapame con tu rebozo, llorona, porque me muero de frio.
Tapame con tu rebozo, llorona, porque me muero de frio.
LA LLORONA
Intérprete: Chavela Vargas
Todos me dicen el negro, llorona
Negro pero cariñoso.
Todos me dicen el negro, llorona
Negro pero cariñoso.
Yo soy como el chile verde, llorona
Picante pero sabroso.
Yo soy como el chile verde, llorona
Picante pero sabroso.
Ay de mi, llorona, llorona,
Llorona llévame al río.
Tápame con tu rebozo llorona
Porque me muero de frío.
Si porque te quiero quieres, llorona
Quieres que te quiera más.
Si ya te ha dado la vida llorona
Que más quieres, quieres más?
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 1:30 PM Comments:
PARANÓIA POLARÓIDE
Sou a imprecisão. O vão aberto entre o eu e o outro-eu. Este dia parado. Cadê meu silêncio complacente? Sou meu silêncio. Sou minha angústia renegada e meu poema catartico em dia de quaresma e jejum. Sem ser, sou meu ponto de intersecção. As imagens verdadeiramente transbordando de minha cabeça feita de plasma e espermicida. Sou estéril em meus sonhos de ontem. Sou meu homem que me visita, sem saber ao certo o sentido profano de meu corpo rasgado em feridas abertas e ressecadas. Eu, meus pés cor de cêra, minha mão imóvel e meu acordeon em flamas verdes. Minha convulsão e o tremor de pernas. Sou a esfera recortada do papel de seda. Sou a indefinição, a espera e desilusão-desespero. Sou um lobo perdido na estépe com de cinzas. Minha quarta-feira de cinzas. Corpo de fênix fulminado pelo olhar sem expressão da máscara de Exu. Meus beijos distribuidos aos passantes. Ninguém na rua... Ninguém a reclamar meu corpo nú e obsceno. Meu falo imóvel, pendendo entre as coxas finas e cabalísticas. Opióides... Meu claro-escuro, meu eu-tu distorcido. Não escrevo isso para ninguém além de mim. Alguém me observa. Alguém sondando meus passos que deixa marcas na calçada. A preguiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiça. (Ócio!) Meu imposto, minha carne exposta no açougue em grandes cortes longitudinais. Volto ao começo impreciso de meus sonhos. Volto ao improviso em Ohio. "E eles eram um só..." Ninguém... Ninguém... Nada neste dia de bodas natalinas. Minha boca vazia de linguas. Meu corpo frio, esquecido no canto obscuro do aquário. Escrevo minhas mentiras verdadeiras. Escrevo minha dor com dedos trêmulos. A carne! A carne! Minha carne-verme imprecisa. Retorno à repetição neurótica. Anorexia nervosa. Minhas mudas gotejadas. Minhas visão distorcida. Arranco meus olhos com bicadas violentas de corvos negros, gralhas paranóides. Uma foto policromática. Neon e plancton.
Yo soy como el chile verde. Casarão em chamas borbulhantes. Eu e minha loucura. Morte aos poemas de amor e êxtase. sou minha morte feita palavra, missal e oferenda a Omolu. Mínimo... Mínimo... Eu sem tu, sem mim, sem seu outro significado para meu som e fonema perdidos nos cacos de uréia.
(L. F. Calaça | 28/02/2006)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 1:23 PM Comments:
Sexta-feira, Fevereiro 24, 2006
ROBERTO PIVA
A provocação é de Roberto Piva, autor de Ciclones e Paranóia, que está sendo relançado pelo Instituto Moreira Salles. Estudioso das técnicas arcaicas do êxtase, passageiro do inframundo e amigo dos "orixás travessos da sombra", Piva nos fala do nexo entre arte e loucura, poesia e marginalidade; alerta-nos contra a monstruosidade do "homo normalis", comenta a obra de Mário de Andrade e rende tributo à onça pintada, convertida por ele em totem da nacionalidade.
Pergunta - Em entrevista recente, você declara ter utilizado o método paranóico-crítico de Salvador Dali para escrever os poemas que compõem o livro Paranóia. Avesso à sistematização de tipo cartesiano, contra os "pinicos estreitos da lógica" e "torniquetes da consciência", para usar expressões suas, tal método, intuitivo por definição, se detém nos detalhes de uma composição para deles derivar...
Piva -
Dali criou esse método a partir do delírio do paranóico. Você, que é psicólogo, sabe que o paranóico se fixa num detalhe e constrói um mundo alucinatório, imaginário, a partir daquele detalhe. Um poema como "Praça da República dos meus Sonhos", por exemplo, foi construído a partir dos detalhes da praça, num delírio semelhante ao do paranóico. Só que não é um poema de alucinação persecutória. Apesar de eu também me sentir um pouco perseguido dentro desta cidade, onde você precisa ser passarinho para atravessar a rua, para não ser atropelado. Não é isso? O poeta Allen Ginsberg dizia que a realidade é que era paranóica, não ele.
Pergunta - Em poemas e manifestos, você sempre insistiu no parentesco profundo entre arte e loucura. Para o artista romântico, esse parentesco significa que o eu autêntico é o eu não-socializado, não sufocado pelas convenções civilizadas ou universalizado "pelo senso comum"; como está no seu poema "A Piedade". Você não acha que tal compreensão deriva freqüentemente para uma crítica não-dialética aos constrangimentos sociais, entendidos como fachadas que encobrem o verdadeiro eu?
Piva -
Eu, como o Pasolini, não acredito na dialética. O que existe são oposições irreconciliáveis. Acredito naquilo que o Freud afirma em O mal-estar na Cultura: existe um movimento cada vez mais restritivo, não só da vida sexual, mas da subjetividade de modo geral. É também, de certa forma, um texto paranóico em relação à Cultura, que é entendida como repressão. Quanto ao parentesco entre arte e loucura, acho que o "desregramento de todos os sentidos", de que falava o Rimbaud, refere-se não propriamente à loucura, mas a um estado de transe. Um estado de transe xamânico, porque Rimbaud era um alquimista, um xamã avant la lettre, que propõe mesmo a "alucinação das palavras"; o termo é dele. Os artistas, como afirma o Joseph Campbell, são os xamãs da sociedade contemporânea. A loucura propriamente dita é uma coisa muito triste, horrível. Quando Huizinga fala que o louco, o poeta e a criança têm coisas em comum, ele está pensando na criação artística, na imaginação fértil, propiciatória. A esquizofrenia em si é uma coisa muito triste. Às vezes tomamos por loucura não a "doença mental" especificamente, mas as manifestações do irracional. Aquele impulso para o irracional que, conforme Pasolini, acabou fazendo do Ocidente, que tanto se empenhou em negá-lo, a vítima mais fatal. E temos aí a história que não nos desmente, não é mesmo?
Pergunta - Você vive afirmando que não acredita em poeta experimental sem vida experimental, que faz os poemas com "o que sobra da orgia" propondo uma identificação entre sujeito poético e sujeito empírico. Não obstante, há vários leitores seus, como o poeta Felipe Fortuna, para quem o bom resultado alcançado por você deve-se menos à radicalidade de experiências tematizadas por você (homoerotismo, drogas etc.) que ao "bom arremate literário" dado àquelas experiências. Como você encara tal tipo de leitura?
Piva -
É aquilo que diz o Octavio Paz: há uma única forma de se ler os jornais e várias formas de se ler um poema. Cada pessoa enxerga uma coisa diferente na minha poesia, pois, no fundo, ela é muito rica e permite uma enorme variedade de interpretações. A qualidade do arremate literário não exclui a radicalidade das experiências que estão na origem do poema. Mas acho que essa valorização excessiva da fatura pode revelar um certo preconceito contra o dionisismo, a idéia de que o dionisismo é algo superficial. Está errado. O dionisismo é uma das religiões mais profundas que já existiram. Basta ver que uma das suas manifestações produziu o teatro. Quer mais do que isso? Dionísio é o deus do teatro. As artes da aparência empalideceram diante de uma arte que proclamava a sabedoria na sua própria embriaguês. Donde a estética cabaço, atuando nas mais diferentes escolas literárias pelo Brasil afora. Vivemos num país profundamente dionisíaco, onde os intelectuais têm preconceito contra as manifestações espontâneas, criativas. Mesmo o fato de me enquadrarem na poesia marginal, dos anos 70, tem a ver com isso. Eu não sou dos anos 70 e não sou marginal; sou marginalizado. E por não ter pactuado com a universidade, com uma certa esquerda, por não participar das rodas literárias, nem dos "chás-da-cinco", aos poucos fui sendo excluído.
Pergunta - Eu queria aproveitar um pouco sua menção à poesia marginal. "Desde que foi expulso da República de Platão, todo poeta é marginal." "O Brasil precisa de poetas perseguidos pela polícia, o resto é literatura." Como ficam hoje tais declarações, feitas por você no princípio dos anos 80? A institucionalização da bandidagem não inviabilizou esse tipo de slogan? Você não acha que a poesia marginal, buscando aproximar a sensibilidade do poeta da do marginal, do bandido, descambou para um tipo de idealização, de estilização, que esvazia a experiência social, concreta, da marginalidade?
Piva -
Os bandidos naquela época eram românticos e possuíam uma ética. Pasolini foi o primeiro a notar isso. Numa sociedade de massas, o banditismo e a criminalidade também estão massificados. Há uma indiferenciação muito grande. Hoje se mata porque o cara não gostou dos óculos que o outro está usando. Ou porque alguém sentou no paralama do seu carro. Eles dizem: "Roubei o tênis que eu vi na televisão porque quem usa esse tênis é bacana". Sabemos, pela experiência de Ivan Illitch, que uma cidade com mais de duzentos mil habitantes será inviável, diz ele, a partir do ano 2000. O que estamos testemunhando nos hospitais não o simples desleixo, mas a crise da Medicina. Como estamos assistindo à crise da Economia. Não é uma crise econômica, mas uma crise da Economia. E tudo se liga à uma crise do urbano. Não importa mais checar índices de criminalidade. O ser urbano não é um centauro, mas um ser sem horizontes; só enxerga o tênis que ele não tem. Então ele mata, às vezes, por um tênis; não pelo benefício econômico que aquilo vai lhe trazer, mas pelo prestígio. Nos anos 60 eu conheci muitos adolescentes marginais, o equivalente dos que hoje estariam na FEBEM. Um deles sabia Baudelaire de cor, "As litanias de Satã", e andava com o Zaratustra do Nietzsche debaixo do braço. Era ladrão, assaltante, mas nunca matou ninguém. Havia um princípio ético que ainda regia a vida daqueles bandidos. Eles também eram de extração rural. Agora são todos urbanóides, pálidos criminalóides de periferia.
Pergunta - Então o lema do Oiticica, "seja herói, seja bandido", não...
Piva -
... mas ele estava falando do "Cara-de-Cavalo", o último romântico do banditismo. Atualmente o que existe é uma criminalidade de massa perigosíssima, porque o homem normal se transformou em criminoso. O homem normal, diz o Pasolini, é um monstro. Está aí a Hannah Arendt, com o Eichmann em Jerusalém, que não me deixa mentir. Quem é o Eichmann? Um cara pavorosamente normal, absolutamente medíocre, que fala por clichês e que mandaria matar o próprio pai, se recebesse uma ordem superior nesse sentido. Um burocrata sinistro, enfim.
Pergunta - Muitos consideram o Paranóia como a Paulicéia Desvairada dos anos 60. Você concorda? Como foi a sua relação com a obra de Mário de Andrade?
Piva -
Acho que o que há em comum entre os dois livros é uma experiência alquímico-futurística da cidade. Só que eu inverto tudo isso. O que eu tive foi uma relação de pesadelo... e de coisas boas, porque, no fundo, a gente só vive o momento. Há o fio-condutor da explosão, a paisagem que se racha de encontro as almas, o cérebro que se racha de encontro a uma calota..., a idéia da ruína. É mais ou menos aquilo que diz o Brecht: "Da cidade sobrará apenas o vento que passa sobre ela". É claro que, além disso, há diálogos mais explícitos, por exemplo, com a "Meditação sobre o Tietê" e com o "Girassol da Madrugada". Aliás, já da primeira vez que li que o Mário, percebi que era um poeta com forte sensibilidade homossexual. Repare bem: "Tudo o que há de melhor e de mais raro / Vive em teu corpo nu de adolescente / A perna assim jogada e o braço, o claro / Olhar preso no meu, perdidamente". No "Girassol da Madrugada", isso aparece de modo muito nítido. O que não quer dizer que eu desconsidere os outros modernistas, mas o Mário foi uma descoberta que me interessou pelo lado homoerótico. Como o Sosígenes Costa. Bati o olho e disse: "êpa!". Depois, consultando um especialista na obra do Sosígenes, obtive a confirmação.
Pergunta - Alguns críticos chamam a atenção para o caráter moralista da sua obra. Um moralismo às avessas, radical, que também atravessa a obra de autores como Sade. Algo como um "catecismo da devassidão" que, fazendo a apologia do mal, chama a atenção para um bem supremo, utópico...
Piva -
...mas esses corpos de que eu falava não existem mais. Eram garotos dourados do subúrbio, da periferia. Hoje, sem a gíria criativa do subúrbio, eles só querem uma moto para colocar na garupa a indefectível garota ornamental. E apenas grunhem. Agora, é preciso também entender a orgia de que eu falo de um jeito largo. A orgia admite muitas interpretações. O Breton, por exemplo, diz que a poesia é a mais fascinante orgia ao alcance do homem. Eu fiz muitas orgias, mas não proponho isso para ninguém, porque muitas vezes as pessoas não estão interessadas. Quando escrevo, não estou propondo nada, estou relatando experiências. Meus textos não possuem caráter prescritivo, muito pelo contrário. Quero que cada vez menos gente se interesse pela orgia sexual, para sobrar mais para mim (risos).
Pergunta - Ainda com relação a isso, queria pensar um pouco no caráter transgressivo da sua poesia, o impulso para epatér le bourgeois. A gente sabe que o burguês adquire o gosto de ser chocado e passa a manipular a insurreição dos artistas em benefício próprio. Você não acha que o Paranóia seduz hoje menos pelo furor iconoclasta que pela qualidade da imagens? Hoje ninguém se choca com "anjos de Rilke dando o cu nos mictórios"...
Piva -
...mas é uma imagem bonita. Fiz o seguinte: tirei os anjos de Rilke daquele pedestal metafísico e os coloquei no mictório, quase numa interpretação shivaísta do anjo do Rilke. O anjo como uma categoria de orgia, de tantrismo. Quanto à burguesia, ela se transformou em classe universal. Não acredito na burguesia em caráter genérico. O marido da Anaïs Nin, por exemplo, era um banqueiro que, sabendo que o Henry Miller transava com a Anaïs Nin, dava dinheiro para ele, que era um escritor pobre, um americano que estava em Paris e tal. Esse sujeito financiou artistas plásticos, escritores... e era um banqueiro. O valor do Henry Miller, para aquele banqueiro anarquista, estava acima do fato de ele ser amante da mulher. Aliás, formavam um trio e se davam muito bem, de acordo com a própria Anaïs Nin. O Henry Miller escreveu sobre isso. Veja você quantos anos ele ficou sem publicar nos Estados Unidos. Foi publicado primeiro na França, porque nos Estados Unidos sua obra estava censurada. Mas ele não escreveu para epatér ninguém. O Henry Miller escreveu sobre aquilo que ele viveu. Se isso é chocante, não é culpa dele.
Pergunta - E quanto aos seus manifestos? O coito anal derruba mesmo o capital?
Piva - (risos)
De certa forma, sim. Porque se todos forem homossexuais, acaba a mão-de-obra. A não ser naquelas sociedades de Sade, em que há a ilha onde algumas pessoas são designadas para a reprodução e, envergonhadíssimas, dirigem-se à heterossexualidade. Mas, se a sociedade inteira for homossexual, acaba a reprodução da mão-de-obra e, portanto, acaba o capital (risos). Não só o capital, a espécie humana. O que talvez fosse interessante. O herdeiro seria a onça pintada que, comovida, agradeceria (risos).
Pergunta - Então aproveite e fale da sua proposta de transformar a onça em totem da nacionalidade.
Piva -
Ah, claro. Parece que, para os índios Ianomami, no dia em que matarem o último xamã e a última onça pintada, o céu cairá. Acredito piamente nisso. O céu já caiu uma vez. Vai cair pela segunda vez se os xamãs e as onças desaparecerem. Proponho também que se façam experências telepáticas com onças para conhecermos suas reais necessidades.
Pergunta - ...você diz até que elas ajudariam a guiar crianças cegas (risos).
Piva -
...ajudariam de uma certa forma (risos), devorando-as como guloseimas, não é? Porque, para os grandes predadores, crianças e mulheres são presas fáceis. Ainda nessa linha da telepatia com as onças, um experimento que deu certo foi o do Guimarães Rosa em "Meu tio, o Iauaretê". É uma obra prima esse conto. É um conto xamânico, pois o tio se transforma no jaguar, se oncifica. Maiakóvski dizia: eu me ursifico. Esse personagem do Rosa parece dizer: eu me oncifico.
Pergunta - Queria que você falasse um pouco da sua relação com a universidade. Em Paranóia, você escreveu que professores "são máquinas de fezes". Noutro poema, sobre a batalha de Campaldino, onde aparece a dúvida quanto ao fato de os guerreiros terem comido carne humana, você diz que os "universotários", com sua "antropofagia vegetariana, apavorados, peidam no escuro". Fale um pouco sobre isso.
Piva -
A universidade é o túmulo da poesia. Eu só fiz curso superior para poder dar aula. Não podia lecionar com dois livros publicados. Lecionei por quinze anos. Tudo o que me deram para ler na universidade ou era sucata ou eu já havia lido. Insisto em que as universidades devem ser transformadas numa coisa viva, isso é, num terreiro de candomblé. Com pais-de-santo, ou xamãs, no lugar dos professores, de modo a propiciar aos alunos uma verdadeira iniciação. As universidades precisam de um corpo docente e um corpo indecente (risos).
Pergunta - Você também é um advogado veemente das "idéias biodegradáveis". Como você as concilia com as suas obsessões?
Piva -
As idéias biodegradáveis são aquelas convicções, como propunha Álvaro de Campos, que não duram mais do que um estado de espírito. Nunca mais do que um dia. Nós vemos por aí pessoas enraízadas em ideologias fascistas e comunistas, cheias de dores-de-corpo, malentendidos, enxaquecas... Por isso o Nelson Rodrigues dizia: "Tem que morrer até o último idiota". Mas todo dia, "nos cabides de vento das maternidades", nasce "um batalhão de novos idiotas", como eu escrevi no poema "Visão 1961", incluído em Paranóia. Mas há muitas pessoas que não têm essas idéias fixas, essas ideologias cimentadas em espaços mortos, esse passadismo que procura deter o dinamismo do pensamento.
Pergunta - "Eu preciso cortar os cabelos da minha alma", diz um verso seu. Em que barbeiro? E como prevenir a calvície da alma?
Piva - (risos)
É uma imagem louca, não é? Acho que, na época, pensava em cortar os cabelos como meio de desfazer a confusão que me atingia. Às vezes, não basta pentear os cabelos da alma. A gente tem que cortar mesmo, para enxergar melhor. Quanto a prevenir a calvície da alma, o melhor remédio, na minha opinião, é o ritual xamânico dos quatro ventos.
Pergunta - Num dos últimos poemas do Paranóia, você diz: "eu quero a destruição de tudo o que é frágil"...
Piva -
Mas sabemos que não é nada frágil aquilo cuja destruição eu desejo. A poesia é que é frágil, é uma forma de abrir brechas na realidade; como o Baudelaire, o Artaud, o Gottfried Benn e o Georg Trakl abriram. Mas não impediram Auschwitz. O poeta não existe para impedir essas coisas. O poeta existe para impedir que as pessoas parem de sonhar.
Fonte: Revista Cult
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 8:16 PM Comments:
LIVRO
Composição: Caetano Veloso
Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo.
Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São livros e o luar contra a cultura.
Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários,
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou o que é muito pior por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um:
Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras.
Tropeçavas nos astros desastrada
Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas.
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 7:48 PM Comments:
MEUS PRESENTES DE ANIVERSÁRIO!
(dããããããããããããããããã, um dia eu leio, um dia eu leio!!!)
Essas são as minhas mais novas aquisições para minha biblioteca psicológica:
ANDROGINIA
Rumo a uma Nova Teoria da Sexualidade
SINGER, June
Editora: CULTRIX
Assunto: SEXOLOGIA/SEXUALIDADE
ISBN 8531604168
1ª Edição - 1991 - 280 pág.
CINEMA E AJUSTAMENTOS CRIATIVOS
Iluminando Gestalticamente o Escurinho do Cinema
CALVO, Cristiane
ODDONE, Ramon Barbosa
NASCIMENTO, Maria Rosalia do
Editora: LIVRO PLENO
Assunto: PSICOLOGIA
ISBN 8587622838
1ª Edição - 2005 - 170 pág.
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 9:59 AM Comments:
Quinta-feira, Fevereiro 23, 2006
CARNAVAL DE MÁSCARAS E MIRAGEM
O Pierrot
Eu, o Pierrot.
Sou parte de mim
sob a márcara de cera
Carne e sangue deslisando
numa dança, imóvel,
num instante.
Lágrimas e silêncio.
A Colombina
Eu, a Colombina
Sou o olhar e o sorriso
neste espaço impreciso
de ser, de beijar
um corpo em pluma
uma cálice roubado
eternidade e perdição
sob o véu de mil pontas.
O Arlequim
Eu, o Arlequim
Sou o ladrão de gaiolas,
o gatuno de botas,
neste estrondo de cordas
minha gargalhada
hipnotisando o palco
meu beijo, mistério.
Ela, o outro, eu mesmo.
Triangulo e inverso.
(L. F. Calaça | 23/02/2006)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 10:34 PM Comments:
Quarta-feira, Fevereiro 22, 2006
SKAP
Composição: Zeca Baleiro
quando você pinta tinta nessa tela cinza
quando você passa doce dessa fruta passa
quando você entra mãe-benta amor aos pedaços
quando você chega nega fulô boneca de piche
flor de azevi- che
Refrão
você me faz parecer menos só menos sozinho
você me faz parecer menos pó menos pozinho
quando você fala bala no meu velho oeste
quando você dança lança flecha estilingue
quando você olha molha meu olho que não crê
quando você pousa mariposa morna lisa
o sangue encharca a camisa
Refrão
quando você diz o que ninguém diz
quando você quer o que ninguém quis
quando você ousa lousa pra que eu possa ser giz
quando você arde alardeia sua teia cheia de ardis
quando você faz a minha carne triste quase feliz
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 11:35 PM Comments:
Estou tentando voltar ao começo, curar mágoas recentes e viver o aqui-agora.
(L. F. Calaça | 22/02/2006)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 9:34 PM Comments:
Pingo em gotas de orvalho nesta cinzenta manhã
transpiro todos os meus pensamentos
Todos os meus sentimentos, para estancar a dor
De ver, pensar, ouvir, lembrar, rir (sozinha)
Transbordo em pensamentos, não me contenho
Pois o sofrimento sempre é único icólume de manhã
Bom, ruim - dormimos e tudo muda ao amanhecer
Serão outras horas, novas pessoas, esperança renovada
E tudo igual a ontem... por que o que passa, passou?
"Minha menina - paz no espírito, força de vontade
E um pouco de maldade nossa de cada dia"
Tão necessária para se viver em São Paulo
Entre as gotas de orvalho frescas e poluídas
Que transpiram nosso cotidiano em todas avenidas
Salve São Paulo - és meu coração esfarrapado
Minha alucinação e meu estado de vegetação constante
evasão fulminante de concreto e falta de paz
Pena, que nem fugir eu sou capaz, apesar de perceber
O quanto é triste pra você estar aqui, mudo...
Tudo mudou, e nós continuamos os mesmos(?)
Cultivamos o medo e mudamos os zelos
de quase toda ínfima coisa ao nosso redor...
Muito embora não seja a cidade, mas a minha mocidade
que me derrama tanto pranto, chora minhas lágrimas
E corta-me em fatias finas de pele e carne vibrante,
Poderia ser menos leal ao que sinto, desviar-me
Ater-me menos com o brilho da lua e o crepúsculo do sol
De tantas frustrações me livraria, mas a intensidade sumiria
... E eu não seria mais eu...
E assim as noites calorosamente amansadas
Tornariam-se pó, lembrança e mais nada.
Mas, o mundo sempre precisa de sonhadores...
E seremos moradores dos campos oníricos então
só para nos distrair...
Vamos trair a vontade alheia e só fazer o que nos convém
E para sempre atrair com intensidade, uma febre terçã
Voamos! vamos partir... fugir daqui
Como as fuligens dessa manhã sem fim.
(
Nix di Bach, pseudônimo de Mariana Tavares)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 2:23 PM Comments:
PROVÉRBIO E METALINGUAGEM
Tua boca-palavra deslisa como lâmina ardente
sobre meu corpo-miragem, arrancando pedaços-poemas
num grito de dor que faz, num instante,
conceber vida e roubá-la num rito profano.
Sob o céu de anaguas brancas e manchadas
por gotas pálidas de meu sangue-ilusão,
seu beijo devora meu beijo, revirando
minhas tripas poéticas em circunvoluções.
A Lua, num sorriso de canto de lábios finos,
lá, distante de meu eu-feto prematuro,
é grande vagina estreita e intocada
que contemplo com olhos tristes de
voyeur
desejando retornar meu mistério e minha inconsciência.
E gotejo minhas lágrimas vermelhas
nas planícies desertas e brancas
violadas por grandes falos negros
- arranhaceus de pedra marcando passagem.
(L. F. Calaça | 22/02/2006)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 8:16 AM Comments:
Terça-feira, Fevereiro 21, 2006
O HERMÉTICO (ou RETORNO AO TEMPO PERDIDO)
Mergulho novamente na solidão daquele abismo
onde meu corpo de escamas deslisa
na escuridão abissal de pensamentos.
Volto à esterilidade com quem novamente morre
e ressurge como estátua branca e fria
sob a chuva e o olhar de quem chora.
As palavras, minhas companheiras do caos,
amarram meus sapatos, uns aos outros,
e me sufocam na pura imobilidade do corpo.
Eu, novamente só, dedilho sons mudos,
rasgo minha pele apodrecida,
guardo-me sob a armadura de vidro.
Mergulho minha imagem no espelho
e de lá não retorno, senão num sonho.
Corpo boiando, Narciso.
(L. F. Calaça | 20/02/2006)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 12:13 PM Comments:
MÍSTICA DAS LUAS
O gato cinzento lambe seu pêlo sobre o espelho partido.
O vento atravessa as árvores pálidas e os fios de meus
cabelos sussurrando palavras em grave tom.
A gaveta guarda cartas antigas, beijos frios e notícias
passadas num verão distante de meu domingo.
Gotas de sangue enegrecidas sobre o tecido quase transparente
sobre o olhar translúcido de meu amor e meu poema.
Vejo turvo a placa sinalizando a saída senoidal
de meu quase estado de transe e torpor.
Sonâmbulo, dedico meus dias ao culto da espera
e me perco no talvez de um agora inconsistente e amorfo.
Amo, porém, aquele olhar que me encanta e me congela
como escultura de sal. SODOMA DESTRUÍDA.
Meu coração em chamas e meu corpo entorpecido
no sereno silêncio de brisa que desenha minhas
sombras na varanda do segundo andar em um prédio,
em um apartamento branco e alheio.
Misturo meu sor com minha saliva e transformo
meu pulsar em místuco feitiço de amor
- outro mundo, outro corpo, outro segredo.
Rasgo meus temores e deixo que me guiem
para o infinito abismo de teus braços
- meus braços - nossos olhos, nosso sopro.
Quase...
quase...
quase...
Loucura indecifrável de fragmentos e ilusões encarnadas.
(L. F. Calaça | 24/01/2006)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 12:07 PM Comments:
FRAGMENTOS ROMÂNICOS
Imagens surgem do espaço vazio
Dentro de mim um sentimento de falta
A Lua que me sorriu está minguante
Debruço-me sobre mim mesmo, sozinho.
O teu corpo - meu corpo latejando
Um olhar apenas, doce, transpassando o peito
Ferida em chamas de flecha enfeitiçada
Mistério obscuro de mim - mapa astral.
meu corpo e minha imagem mergulhados
num abismo profundo e inflamado
Sou minha saudade intraduzível
Neste agora, neste aqui, perdido em miragem.
Eu-Tu fundidos num instante em desejo.
Memória breve de tantos beijos doces.
Textura e perfume eternizados em forma
e contorno de um travesseiro branco.
(Faltam-me as palavras neste poema triste).
(L. F. Calaça | 24/01/2006)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 11:51 AM Comments:
EU E OUTRO-EU ou O BEIJO
a A. S.
Eu... Descubro meu eu num toque. Um toque além do toque de palavras. Um toque às vezes silencioso, pois real e único em um momento supremo de contato.
Descubro-me no outro, que sou eu enquanto não há palavras possíveis que vetem o fluxo. Quando não há o medo de ser breve ou passageiro. descubro-me no
aqui, no
agora, na mão, no lábio, no pêlo, na saliva que transita numa conjunção plena, enquanto dura a chama cíclica do tempo. Dupla chama devorando muda e explosiva.
Descobre-me atrás de uma couraça. Afrouxo meu corpo, deixo de sentí-lo, de pensá-lo, de raciocinar cada passo no escuro, buscando uma mórbida segurança desnecessária. Descubro-me e vejo meu corpo além do corpo, como possibilidade, como realidade palpável e vibrante, como mistério único de um instante de fusão, indiferenciação, mistura. Eu, Tu, fundidos num espaço inteligível de agora, fluindo o contato, abrindo e fechando formas, bocas, olhos, mãos...
Descubro-me erotisado pelo olhar do outro, e sedutor. As palavras me faltam, pois não quero pensar sobre nada, quero reviver o
como enquanto vivência, encontro e memória. Quero reviver este instante em que deixei de ser eu, para ser minha essência transformada, após a consciência de um existir sem palavras.
Não tentarei compreender. Naõ é preciso!
Descubro-me e transformo meu corpo em chama, volúvel e volátil, trêmulo como carne e canção afogada na noite.
Até que um novo contato se estabeleça, um novo eu, um outro-eu, um outro agora. Sem promessas, sem palavras, gozando o instante único de realização de um algo além.
(L. F. Calaça | 15/01/2006)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 11:43 AM Comments:
Segunda-feira, Fevereiro 20, 2006
ORAÇÃO DA GESTALT
Eu faço minhas coisas, você faz as suas.
Não estou neste mundo para viver de acordo com suas expectativas.
E você não está neste mundo para viver de acordo com as minhas
Você é você, e eu sou eu.
E se por acaso nos encontrarmos, é lindo.
Se não, nada há a fazer.
(Frederick Salomon Perls)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 8:29 AM Comments:
SOLIDÃO
Interprete: Cetano Veloso
Composição: A. C. Jobin/Alcides Fernandes
Sofro calado
Na solidão
Guardo comigo
A memória do teu vulto
Em vão
Eu fui tão bom pra você
E o resultado
Desilusão
O dia passa
A noite vem
A solução desse caso
Cansei de buscar
Eu vou rezar
Pra você me querer
Outra vez
Como um dia me quis
Quando a saudade aperta
Não se acanhe comigo
Pode me procurar
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 8:21 AM Comments:
Domingo, Fevereiro 19, 2006
LÁGRIMAS DE UM LOBO
Sete gotas de orvalho deslisam silenciosas sob minha máscara de cêra.
Você, que acendeu meu desejo, dorme o sono sereno e alheio.
Abra os olhos... Abra os olhos... Abra os olhos!
Minha boca sedenta deseja sua boca macia e doce,
mas só encontra uma frieza úmida.
Meus braços desejam seu corpo quente
e encontra a imobilidade.
Meus olhos cor de bronze buscam seus olhos
fechados como portões enferrujados.
Meu EU deseja seu EU para o contato, o toque,
um encontro, um momento, onde nada haja à volta
senão a fluidez de nossos corpos,
totalidades presentes e em simbiose.
Abra os olhos e veja
o momento presente que se foi como lembrança
o instante transformado em poeira sobre a pele.
Meu eu triste e sozinho... frio em meu abismo.
Seu eu distante e desejado.
Sete gotas de minhas seiva
deslisam triste sobre a pele de meu rosto
silenciosas, salinas, quase mornas,
enquanto seguro seu corpo que não é meu.
E a chama... a chama dupla e vermelha
se torna faísca azul e fria em meu coração
- pequena escultura em sal.
(L. F. Calaça | 19/02/2006)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 7:17 PM Comments:
Sábado, Fevereiro 18, 2006
LISTA DE PRESENTES DE ANIVERSÁRIO (ATUALIZADA E ACRESCIDA DE NOVOS ITENS)
Por insistencia de muitas pessoas que estão pensando em me dar presente de aniversário, dia 28/02, estou postando aqui uma lista com mais "possibilidades".
1. Camisas de microfibra de manga curta (de preferencia branca, pois já tenho um bocado de várias cores, mas nenhuma branca)
2. Camisas de poliester da marca ADMISSION, de preferência de cores escuras ou "vibrantes" e com estampas fashion (são literalmente BBB: boas, bonitas e BARATAS!) - encontradas na RIACHUELO. (Não uso roupas de grife!)
3. Um short tipo cueca samba-canção de seda verde com bolinhas amarelas (eu já tenho o preto de bolinhas vermelhas 3D) , encontrado na RIACHUELO, por R$ 7,90.
4. O COPO DE CÓLERA ou
LAVOURA ARCAICA - Raduan Nassar, Companhia das Letras. (O valor eu não sei dizer, mas deve ser mais de R$ 20,00).
5. Revistas dos Encontros Goianos de Gestalt-Terapia - os primeiros 7 volumes estão custando R$ 18,00 cada (R$15,00 + R$3 de postagem) - para adquirí-las, falar com
itgt@itgt.com.br
6. Revistas de Gestalt, do Instituto Sedes Sapientae - volumes 4 a 9 estão por R$ 19,00 cada (R$ 15,00 + R$ 4,00 de postagem) - para adquirí-las, falar com
secretaria@sedes.org.br
(OK)
7.Cinema e ajustamentos criativos, CALVO, Cristiane / ODDONE, Ramon Barbosa / NASCIMENTO, Maria Rosalia do. LIVRO PLENO, R$ 26,00 - Encontrado apenas no site da Livraria Cultura.
8. O viajante solitário - Jack Kerouac , L&PM Pocket , R$ 16,00
9. On the road - Jack Kerouac , L&PM Pocket, R$ 19,50
10. CDs de Adriana Calcanhoto, exceto o MARÍTMO, o SENHAS e o A FABRICA DO POEMA, que eu já tenho.
11. CDs de Caetano Veloso , exceto o FINA ESTAMPA (AO VIVO) e os das coleções Millennium e Gold.
12. O CD Meds, do Placebo, mas só vai ser lançado em março, e eu quero comprá-lo, mesmo que para isso tenha de me prostituir!
13. Antologia dos Novíssimos ,1961, Massao Ohno, R$ 56,00. (Essa antologia tem poemas inéditos de Roberto Piva) - É muito cara e já descartei a possibilidade de vir a comprá-la. Mas, como sou um masoquista, registro aqui minha condição de "castrado". Encontrado no site do Sebo MOBILE (www.mobilelivros.com.br)
14. 26 Poetas Hoje, Heloisa Buarque de Hollanda, R$ 16,00 (+ R$ 3,00 de frete) - (coletânea contendo poemas de Roberto Piva, não sei quais!) - encontrado no site do Mercado Livre (www.mercadolivre.com.br)
Para os presentes mais caros, aconselho que façam vaquinha, mutirão ou coisa parecida, ou, optem pelas camisas de microfibra mesmo que eu gosto e tô precisando. Hehehehehehe. (até parece que vou receber tanto presente assim! ;P
Um grande abraço a todos,
Luiz Fernando
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 10:21 AM Comments:
Quinta-feira, Fevereiro 16, 2006
OS ESCORPIÕES DO SOL
O adolescente ajoelhou-se abriu a braguilha da calça de
Pólen & começou a chupar.
Eram 4 horas da tarde do mês de junho & o sol batia no
topo do Edifício Copan suas rajadas paulistanas onde Pólem
& luizinho foram fazer amor & tomar vinho.
O adolescente vestia uma camiseta preta com o desenho no
peito de um punho fechado socialista, calças Lee desbotadas
& calçava tênis branco com listras azuis. Você é minha
putinha, disse Pólen. Isso, gritou Luizinho, gosto de ser
chamado de putinha, puto, viado, bichinha, viadinho ah
acho que vou gozar todo o esperma do universo!
Neste instante um helicóptero do City Bank aproximava-se
pedindo pouso & os dois nem ligaram continuando com
suas blasfêmias eróticas heróicas & assassinas.
O guarda que estava no helicóptero então mirou & abriu
fogo.
Luizinho ficou morto lá no topo do Edifício Copan com
uma bala no coração.
Por onde é preciso começar?
Pólem não sabia mas seu olho sabia, sua mão sabia, sua
política cósmica sabia.
Hermafrodita morto no musgo mais alto. Suas baleias de
ternura, suas tranças do mais puro ouro, suas sardas em
torno do narizinho meio arrebitado & insolente.
Luizinho era uma sombra dentro do seu coração anarquista
& rápido suas lágrimas quebraram o aço dos elevadores com
seus guinchos de múmias eletrificadas ondas de reflexos
polaróide em frente à Igreja da Consolação rostos picados
nos escritórios & seus violinos enfadonhos, o amor
começaria por uma perda?
A atmosfera cor de azeitona era um alívio para o coração
metralhado pela dor construída ao crepúsculo doente em
cargas elétricas & surdas feitas de veludo & espinhas de
peixe um rodízio de aberrações crispou o rosto de Pólem
que agora tomou um ônibus & percorreu São Paulo num
suspiro rodando & rodando por aquela massa cinzenta do
capitalismo periférico sem escapatória & suas grandes asas
cobriam o Sol & seus escorpiões.
Enquanto isso os cinemas sofriam ataques contínuos de
office-boys armados com estilingues & bolinhas de gude &
partilhavam da turbulência do Grande Terror com
máscaras feitas de folhas de bananeiras & bermudas
justíssimas onde podia-se ver magníficas coxas & lindos pés
descalços com tornozelos rodeados com florzinhas amarelas
& muitos traziam a palavra COMA-ME costurada na
bermuda na altura do cú.
Naquela tarde todo mundo estava com vontade de nadar
em sangue.
anjos da verdade pensou pólem em sua calma
estranguladora de babuínos agora devem começar as
quermesses com leitões coloridos purê de maçã & delicados
tutús à mineira ostras de Cananéia apimentadas servidas
com retumbantes batidas de Maracujá (a fruta da paixão)
codorninhas recheadas com uvas passas & torresminhos com
queijo ralado o verão bem poderia chegar com seu perfume
de acarajé invadindo os colégios fazendo os adolescentes
terem ereções & as garotas desmaiarem de desejo com seus
pequeninos seios latejantes.
agora
um anjo pousou
em seu ombro
& pólen adormeceu
Quando acordou alguém tinha deixado em suas mãos o
livro As Américas e a Civilização de Darcy Ribeiro & ele
desceu do ônibus para sentar na praça Buenos Aires & ler.
Abriu na página 503 & leu:
"Os Guerreiros do Apocalipse.
Uma vez implantadas as bases do estado-militarista na
América do Norte, uma série de acontecimentos comoveram
a opinião pública, os governantes, os militares, conduzindo
toda a classe dirigente do país a crises sucessivas de
apavoramento e histeria."
APAVORAMENTO Nº 1
dezoito garotos & dezoito garotas foram emparedados vivos
em caixas construídas com chicletes que só Adams fabrica &
tostados dentro de um porão de arsênico & cascavéis.
APAVORAMENTO Nº 2
quinze adolescentes de ambos os sexos foram chicoteados na
bunda por batalhões da TFP que os insultavam enquanto
trezentos rapazes & moças de seita imperialista Hare
Krishna cortavam rodelas de cebola & colavam em seus
olhos.
HISTERIA Nº 1
a confraria reacionária Unidos em Série promovedora de
festivais de telenovelas nas fábricas jogou uma substância
criadora de histeria CBK7 no reservatório de água de um
colégio de freiras & as alunas peidavam 3 dias & 3 noites
sem parar & depois se flagelaram & crucificaram.
HISTERIA Nº 2
setenta adolescentes fascistas do Colégio Objetivo criaram
no laboratório de química (com o auxílio de alguns
professores) uma substância hipnótica cuja finalidade é
levar a vítima ao arrependimento seguido de crises de
misticismo histérico.
Esta substância foi testada no bairro operário da Moóca &
durante 2 meses às 6 horas da tarde na Avenida Paes de
Barros os operários se reuniram para rezar.
Pólen costumava organizar sua vida às quintas-feiras mas
estávamos numa quarta & sua loucura era da pesada sem
distinção de raça credo ou cor & uivava pelas ruas com
duas panteras pintadas em seu peito falando com os amigos
sobre as poesias de Maquiavel, Cesar Borgia, Castruccio
Castracani o herói das galáxias medievais no início da era
burguesa dos chinelos & pincenê agora devidamente
catalogada na Ruína Absoluta sem permeios Kennedyanos
na mexerica & suas pompas fúnebres.
O trombadinha quis saber se Pólen acreditava no lúmpen.
O trombadinha tinha sido descabaçado por um esquimó
bolsista da P.U.C. Pólen declamou doze poemas escritos
contra a C.I.A. O trombadinha queria dar.
Pólem comeu-o ali mesmo, depois de roubar sua camisa.
O trombadinha queria mais.
pólem então chamou seu amigo economista sádico &
classicista & fez ele comer o trombadinha que suspirava
dizia palavrões inflamados pedia para ser cintado e chamado de
Arlete & toda a imaginação delirante de Eros irrompeu no
cérebro do economista que queria ver a vertigem de perto
antes de se converter para sempre ao ateísmo militante
soltando suas farpas contra a figura de Nonô o Curandeiro
padroeiro do trombadinha.
Roberto Piva, COXAS
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 3:34 PM Comments:
ANTROPOLÍTICA DE ENTREGA EM PROFUNDIDADE
1 - Transformar a praça da Sé em horta coletiva &
pública
2 - Acelerar o processo de desinibição
3 - Provocar focos revolucionários na confraria reacionária
Unidos em Série
4 - Ouvir música tentando conceber o Universo Paralelo
5 - Pintar desenhos obscenos nas ruas
6 - Desmascarar os limites do mistério
Pólen amou Lindo Olhar debaixo de um ipê roxo junto à
fogueira.
O Agente Cartesiano tentou ganhar Coxas Ardentes no
papo.
O Agente Cartesiano queria um festival de paixões &
sonhava com manufaturas.
O Agente cartesiano tremia ao ouvir palavras como: carga
de espinafre, gavião berolina, fundo da flor, polvo nômade,
saci prancheta, colarinho de gorila, nascido no mato, ovo
de turco.
O Agente Cartesiano foi morto por Coxas Ardentes no
melhor estilo renascentista com anel de veneno & tudo.
A agulha de tricô carismática
(rock balada: letra & música
de Coxas Ardentes)
pele de foca Nabucodicanduras
ganhou uma lebre ao amanhecer
gelou suas patinhas na crista da onda
espetou seu coração no punhal
do engraxate
agora a costela escoteira corre a língua
na bunda adormecida
o punhal é anfíbio
Coxas Ardentes tomou um gole de Kirsch & seus olhos
arderam em lágrimas pensando no hamburguer com bacon
por comer & seus amores passados & a solidão presente em
marcha agônica de Wagner urso do salão Nietzscheano
propiciador de omeletes de queijo com vinho verde &
batucadas pornosambas de Luiz II da Baviera & Peter Gast
tocando zequinha de Abreu ao piano enquanto Cosima Wagner
fritava salsichões vienenses para o grupo de filólogos &
Lou Andreas Salome onde acendeu seu fogo dionisíaco &
pitagórico para além do horizonte de palavras mortais de
Coxas Ardentes que só terá descanso quando estiver nos
braços do Andrógino Antropocósmico.
Roberto Piva, COXAS
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 3:33 PM Comments:
NORTE/SUL
A caravana ladra & os cães passam
você mija na boca aberta da bicha
os anjos quebraram suas coxas no muro do hotel todo
vermelho de susto
o leitão blindado dança no zig-zag de Heronimus Bosch
seu tango de petúnias
o botão de controle da Sala das Torturas
no porão do hospital é um olho parado amarelo
vozes cachos de tâmaras tafetás rasgados de onde salta a noite
gritos de garotos de botas e biquinis
sendo flagelados por vinte putas alucinadas de cocaína
corredores apinhados de gerentes de banco
dando o cú para druidas com os paus embrulhados em
celofane
peidos sintonizados de vinte mil pombas no telhado
La terra trema
galáxias alvejadas derramando seu suco sobre nossas
cabeças
Hitler sacudindo seu pau mole para os Capitães de Areia
locomotivas nas planícies bêbadas de vinho
ilhas magnéticas rolando pelos mares
com seus pássaros exóticos tocando banjo & flauta doce
o garoto sofreu o ataque da ave de rapina chamada Zeus &
seus testículos hipnotizaram a luz do sol vedando a
adoração da luz para os patriotas do pornosamba & suas
matracas tatuadas
La terra trema
a toca do coelho paranóico & sua Baviera de folhas verdes
ronronando até o ponto máximo da febre amarela
Muchachos ragazzi garçons boys garotos com vaselinas-antenas
duplas mãos na escadaria da Pensão Coração Adormecido pés
descalços pisam bocas entreabertas dos irmãos
transbiológicos
travesseiros recheados de penas pornográficas
vôo rasante da última senzala iluminada gargalhando de
esplendor.
Roberto Piva, COXAS
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 2:37 PM Comments:
Domingo, Fevereiro 12, 2006
EROS
Meu corpo...
Pele transformanda em chamas multiplas.
Seu corpo, meu corpo, duplos fundidos
- o centro da Terra em ebulição.
Imagens...
Eu sem minha armadura de vidro.
Despido... pêlos invisíveis em suspensão.
Espaço mínimo entre suor e sangue.
Tu! Transmutação..., metáfora!
Meu sexo confundido com o seu.
Fluxo intenso de lábios se encontrando
num beijo a desenhar a boca.
Eros delirando num devir.
Eu-tu retornando ao princípio mesmo
dos signos refletidos em conjunção.
No cosmo, na alcova, no infinito.
Alma... corpo... poesia...
Partes de um todo de mil faces.
(L. F. Calaça | 12/02/2006)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 6:53 PM Comments:
Quinta-feira, Fevereiro 09, 2006
Três poemas do livro inédito Estranhos Sinais de Saturno, de Roberto Piva:
O Marquês de Sade
& a Marquesa de Santos
caminham ao jazz do crepúsculo
lembrando certas luminosidades
certos espasmos
certos atos visionários
gritando seus triunfos na
escuridão
*****
Os rios revoltados saberão
vingar-se
Oh Paracelso
Oh Dino Campana
Oh Xangô
da minha janela da lua
vejo cidades que
sufocam no cimento
rosas de barbitúricos explodindo
nas sacadas
garotos de bicicleta dissertando
sobre a vida dos deuses
*****
o mistério lunar da menina
lésbica
linda como um nenúfar
com seu nome de pássaro
levando na mochila As
Canções de Bilitis
uma coruja no ombro
& no sangue os gritos dos
náufragos de outrora
FONTE: http://zonabranca.blog.uol.com.br/arch2004-08-29_2004-09-04.html
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 5:39 PM Comments:
POETA EM PELE DE TIGRE
Roberto Piva caminha lento. A saúde um pouco debilitada diminuiu a ferocidade desse poeta que criou uma obra originalíssima, sempre ao largo de todo e qualquer modismo literário. Ignorou os prêmios, a bajulação a editores e comandantes dos suplementos culturais. A irregularidade na divulgação de seu trabalho, aliada à coerência de uma vida libertária, de uma poesia visceral, sem concessões, poderia ter privado algumas gerações do contato com um dos maiores poetas brasileiros da atualidade. Afinal, seus primeiros livros se encontram esgotados há muito tempo e uma única antologia com seus poemas e manifestos foi publicada há 20 anos. Mesmo assim, sua poesia circulou, de mão em mão, em pequenas revistas, fanzines, xerox. Não há jovem poeta no Brasil que não tenha vibrado com suas imagens lisérgicas, sua lírica retumbante. Quando o conheci, em 1987, ele tinha 50 anos e, punhos erguidos, entoava cantos aos anjos pornográficos, blasfemava contra toda e qualquer repressão (de direita e de esquerda, essa principalmente). Hoje sua voz é mais mansa. Seus tambores precisam do silêncio estonteante das borboletas, seus olhos de gavião "buscam as grandes Claridades ofendidas", fazendo-o "levitar amando as estrelas derrubadas". Assim como sua poesia, sua pessoa não aceita meio termo, meias verdades, falso brilho. Lendo alguns textos sobre seu trabalho, antes de fazer esta entrevista, duas declarações me chamaram a atenção. Em 1996, um artigo na revista Azougue (sob o comando do poeta Sergio Cohn) começa assim: "Tínhamos conhecido a poesia do Piva há cerca de um ano. E já o amávamos". Agora, no prefácio da sua obra reunida, o crítico Alcir Pécora diz, logo de início: "Difícil não amar gente inconformada, num mundo de mansos". Esse poeta, em pele de tigre, não permite a indiferença. Pode-se gostar ou não, mas ao entrarmos em sua obra, jamais saímos o mesmo.
Ricardo Lima - Você nasceu em 25 de setembro de 1937 em São Paulo. Onde passou a infância? O que queria ser na vida?
Roberto Piva - Acho que não queria ser nada. Passei a infância em São Paulo e no interior, na fazenda do meu pai em Analândia, região de Rio Claro. Eu era muito avesso à escola regular, fiquei muitos anos sem estudar e depois fiz duas faculdades para poder sobreviver, para poder dar aulas.
RL - Quando você se definiu pela literatura? De quando são os primeiros poemas? Nessa época você convivia com outros poetas?
RP - Em 1961. Saí na Antologia dos Novíssimos, editada pelo Massao Ohno. Nesse período eu vivia com o Cláudio Willer, Antonio Fernando De Franceschi, Décio Bar, Roberto Bicceli, entre outros.
RL - Na sua juventude (início dos anos 50) a novidade literária era o concretismo. Como você via esse movimento?
RP - Eu não me interessava por ele. Era um pequeno grupo que nunca me despertou interesse, eu não tomava conhecimento disso. Não me interessava, como não me interesso hoje. Esse negócio me parecia linha de montagem e, em 1936, o genial Charles Chaplin, já tinha "desmontado" essas estruturas com o filme "Tempos Modernos". Portanto, não entrei nessa.
RL - No final dos anos 50 (com pouco mais de vinte anos) você fez um curso de três anos sobre Dante Alighieri, que parece ter sido decisivo na sua formação. Quais outros autores estavam presentes nesse momento?
RP - Nietzsche, Kierkegaard, os existencialistas, Heidegger, filosofia e literatura, tudo misturado, Artaud, beat generation...
RL - Sempre que escrevem sobre sua vida, recordam sua passagem pela produção de shows de rock, nos anos 60. Essa experiência ¿ somada à linguagem fragmentada do cinema e às inúmeras referências a pintores (Bosch, De Chirico, Caravaggio) e escritores ¿ mostra um poeta essencialmente urbano, bombardeado pela indústria cultural? Ou se trata de aproximações poéticas?
RP - Não tem nada a ver com indústria cultural. É mais a segunda opção. Eram aproximações poéticas com as obras que me impressionavam, me inspiravam, me impeliam à criação.
RL - Seus primeiros livros (em 1963 e 1964), conforme nos apresenta Alcir Pécora no prefácio da obra reunida, tem um "viés beat, whitmanniano e pessoano". Você ignora o concretismo, não adere à poesia participante, de conteúdo social e, tampouco, segue a secura da tradição cabralina. O verso livre, desprovido de toda e qualquer regra, era também um grito de liberdade naquele momento de sufoco e repressão?
RP - Que sufoco? Isso era muito relativo, os militares não ficavam atrás de você o dia inteiro. Eles ficavam lutando bang-bang com os terroristas e deixavam o resto da população em paz. O verso livre tem a ver, antes de mais nada, com o estilo da minha vida.
RL - Homossexualismo. Alucinógenos. Marginalidade. Como era viver de um modo tão controverso quando as minorias tinham ainda menos espaço, menos expressão na nossa sociedade?
RP - Eu vivia como vivo hoje. Dava aulas para sobreviver e não pensava muito nessas coisas. Foi um período em que não escrevi quase nada.
RL - Pois é, esse período coincide com um hiato na sua produção poética. Depois de uma estréia tão forte, com Paranóia e Piazzas, você ficou 12 anos sem publicar. Por que isso?
RP - Não sei. Eu não pensei nisso. Para falar a verdade eu nunca pensei nisso.
RL: Já nesse primeiro momento, sua poesia vem acrescida dos "manifestos". Como eles foram divulgados e como você os analisa dentro da sua produção? São poemas também, ou tratam de questões que não cabiam nos poemas, por isso, esse outro formato?
RP - Não os considero poemas, era uma outra maneira de me expressar, eram manifestos mesmo. Os manifestos dos anos 60 eram divulgados por mimeógrafo, em plaquetes.
RL - Segundo Alcir Pécora, esse primeiro momento já traz algumas características marcantes da sua "poesia explosiva": o jogo de extremos e a escolha do autor ("condição desta escrita libertina"); a centralidade do sexo e a tangência do sagrado ("ato profanatório ou excesso amoroso e orgiástico"); e, por fim, a recusa ao sentido (a incompreensão como "um tipo de violência exigida pelo verso novo contra o comodismo"). Como a crítica, na época, reagiu a essa novidade poética?
RP - Ela não reagiu. Não saiu nada. O Pasolini, depois de cineasta famoso, publicou um livro que foi ignorado. Ele mesmo teve que fazer uma resenha, com pseudônimo, para chamar atenção da crítica e ter o trabalho reconhecido.
RL - Existia um projeto poético? Em que ele se diferencia de suas experiências pessoais?
RP - Não tinha projeto poético. Tinha a vivência poética. Minha vida e minha poesia são uma coisa só.
RL - A poesia portuguesa do século XX tem muitos autores influenciados pelo surrealismo, bem mais que a brasileira. Que autores portugueses lhe interessam?
RP - Sá-Carneiro, Fernando Pessoa, Mario Cesariny de Vasconcelos, António Maria Lisboa, enfim, vários autores que se aproximaram bem mais do surrealismo que os autores nacionais. Aqui, só o Murilo Mendes tinha uma vertente surrealista muito forte.
RL - De 1975 a 1985 você publicou cinco dos seus oito livros. Nessa fase se acentua o surrealismo e com ele aparece o refúgio na natureza, o batuque, os primeiros xamãs. É fortíssima a defesa ecológica, a crítica aos valores predatórios da civilização capitalista. Esse grito de resistência, muito claro nos manifestos do início dos anos 80, está hoje diluído nos versos curtos dos cantos xamânicos da fase mais recente ou não?
RP - A crítica era contra o provincianismo que acompanha todos esses movimentos, sou totalmente a favor da globalização, não sou brasileiro, sou um cidadão do mundo. Essa poesia xamânica, da fase mais recente, está também presente no Vinte Poemas com Brócoli, de 1981. Esses manifestos estão mais atuais do que nunca, e hoje acredito que estão mais envolvidos com a poesia.
RL - Após uma fase blasfematória (1960), acentuou-se a surreal (1970/80) até chegarmos à mística (1990 até o presente). Novamente, recorro ao prefácio do Alcir, para ressaltar que "os elementos mais relevantes de um período permanecem em todos os outros, havendo aspectos de continuidade e coerência marcantes em todo o conjunto". O culto, o ritual, os tambores são hoje suas ferramentas fundamentais para a realização poética?
RP - Não. Foram nos anos 80 e 90, atualmente estou meio devagar com isso.
RL - Com exceção do Ciclones (1997) e da reedição de Paranóia (2000), seu trabalho não aparecia em livro há 20 anos (a Antologia Poética, editada pela L&PM, é de 1985). Mesmo ausente do mercado editorial, como você conseguiu continuar sendo referência para os jovens poetas?
RP - Isso mostra que não sou poeta marginal, mas marginalizado. E isso significa que a minha poesia tem uma dinamite própria e alcança gerações que eu nunca esperava que fosse alcançar.
RL - Em 40 anos de poesia, não é possível aproximá-lo de nenhum grupo ou corrente literária brasileira. Sua "linhagem poética" remonta a Blake, Rimbaud, os surrealistas, os beats. Você não veio de "escola" alguma. Você acredita estar fazendo "escola", ou seja, existe uma poesia hoje inspirada em Roberto Piva?
RP - Tem vários poetas jovens que escrevem influenciados por mim. Não posso falar sobre o modo de vida deles, muitos não conheço pessoalmente, conheço apenas a poesia, mas vejo influências.
RL - Sei que você evitaria apontar este ou aquele poeta. Mas, você acompanha a produção atual? O que você acha da poesia feita no Brasil pela geração surgida nos últimos 10 ou 15 anos?
RP - Acompanho alguma coisa. Gosto de muita coisa e também não gosto de outras. Os poetas do Rio de Janeiro, por exemplo, sempre deixam uma impressão favorável. Acho que estamos num bom momento de produção poética.
RL - E qual sua avaliação da poesia feita hoje pela sua geração, ou seja, a de poetas com 40 anos de estrada e uma dezena de livros debaixo do braço?
RP - Tem várias pessoas ainda produzindo e vejo qualidade nesses trabalhos, como o Willer, o Franceschi, entre outros.
RL - De poeta marginalizado nos anos 60, ao reconhecimento como uma das mais importantes vozes da poesia brasileira contemporânea. A pequena circulação dos seus livros reflete o horizonte curto do nosso segmento editorial, ou a crítica demorou para reconhecer seu talento? Como tem sido a recepção dessa "obra reunida"?
RP - De modo geral, parece que ainda não me entenderam direito. A não ser um pequeno grupo de críticos. A obra reunida tem sido bem recebida, mas não sei se isso significa entendimento. Acho que falta mais leitura por parte da crítica, mais conhecimento, principalmente na grande imprensa.
FONTE: http://www.germinaliteratura.com.br/literatura_out05_robertopiva1.htm
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 4:55 PM Comments:
A VOZ DA TRANSGRESSÃO
Símbolo da poesia marginal, o paulistano Roberto Piva retoma a carreira nas letras e tem sua obra relançada em três volumes
'Lixo? Luxo? Arre, exercícios de forma e fôrma!' O poeta paulistano Roberto Piva, de 68 anos, quer distância da literatura em banho-maria. Ele nunca transigiu, na arte ou na vida, e, discípulo de gente que elegeu a exceção à regra, fez versos como quem morre. De Dante a Blake, dos românticos alemães aos visionários franceses, com a liberdade de fragmentação dos futuristas e de juntar alhos e bugalhos dos surrealistas, sob o impacto dos uivos ginsberguianos, fez versos como quem vive na contramão. Um Estrangeiro na Legião, título do primeiro dos três volumes que reunirão sua obra poética, dá uma medida do sentimento que o move. É um eterno estranho no ninho, dotado de uma fúria verbal que se manifesta em Ode a Fernando Pessoa (1961), Paranóia (1963), Piazzas (1964) e os manifestos Os Que Viram a Carcaça (1962), todos no primeiro volume.
São mais de 40 anos de uma poesia que, pela clareza da linguagem, chamando as coisas pelos nomes mais crus, não está nas academias. 'Por ser o grande inimigo do eufemismo na poesia brasileira', afirma o poeta e crítico Cláudio Willer, companheiro de geração, 'e nem tanto pela obscuridade, hermetismo, caráter iniciático e intertexto...' Uma obra que, apesar das referências - Piva é um homem que lê e assimila -, abriu seu caminho e se impõe, pouco conhecida, na poesia contemporânea brasileira. É a poética da liberdade e da transgressão, que expõe contradições e paradoxos. Para o autor, a arte não imita a vida: é a vida. 'Quando nossos/poetas/vão cair na vida?', pergunta em Ciclones, o último livro publicado.
Roberto Piva diz a ÉPOCA que não se marginalizou, mas que foi, pelas escolhas estéticas e/ou existenciais, marginalizado. Depois, manteve distância dos clubes literários dominantes. Daí a conspiração do silêncio em torno de sua obra. Isso, porém, é um dado do passado. Hoje, ele tem outras preocupações, como provar que carne e espírito, por exemplo, não se contrapõem. Ele, que defende um erotismo homossexual, defende a sacralidade da natureza e invoca suas forças em rituais xamanistas. Também não quer ser um árbitro das novas gerações que fazem poesia. Se tanto, quer ganhar mais leitores. Para ele, a publicação de sua poesia por uma grande editora coroa a obra. Sem que tenha feito concessões.
ROBERTO PIVA
Dados pessoais
Nasceu em São Paulo (SP), em 1937
Estréia
Sete poemas na Antologia dos Novíssimos (1961)
Obra
Paranóia (1963),
Piazzas (1964),
Abra os Olhos e Diga Ah! (1975),
Coxas (1979),
20 Poemas com Brócoli (1981),
Quizumba (1983),
Antologia Poética (1985),
Ciclones (1997)
Foto: Maria do Carmo Bergamo/divulgação
ÉPOCA - O que é a poesia?
Roberto Piva - Um salto no escuro. Como o amor. Uma loucura, uma alucinação. Algo, como diz o Octavio Paz, sem nenhuma utilidade.
ÉPOCA - Qual é a diferença entre a São Paulo de Paranóia, canto de amor e ódio à cidade, do início dos anos 60, e a São Paulo de hoje?
Piva - Era um tempo mais efervescente, mais vibrante. Agora, acho, tudo é mais burocrático. Mas é preciso dizer que, então, estávamos no começo. Era possível fazer uma crítica à cidade, à vivência urbana. A periferia de São Paulo tinha um aspecto rural. Isso foi perdido. Houve a massificação em torno do cimento armado. Era um tempo em que havia praias selvagens, onde íamos acampar. Hoje estão tomadas pela especulação imobiliária. Não existiam, claro, computadores, internet... Nem uma sociedade de massa como hoje. Pasolini já se referia à criminalidade de massa... Não generalizo. Não quero ser maniqueísta. Mas não sou um poeta da cidade, um cronista da cidade. Sou um poeta na cidade. Depois, vale dizer que nem mais escrevo sobre São Paulo.
ÉPOCA - Qual é a diferença entre a poesia que você fazia nos anos 60 e a de hoje?
Piva - A essência é a mesma, motivada pela impossibilidade absoluta que tenho de me conformar. Minha poesia é magmática, manifesta-se como o magma dos vulcões, substância composta de uma infinidade de elementos. Sou um poeta que reflete centenas de influências, transformando essa matéria-prima em poesia. O estilo entre os poemas de ontem e de hoje mudou. Mas há de tudo, textos curtos e longos, movidos pela mesma indignação.
'Sempre me insurgi contra a mecanização da poesia, as academias, e uma certa poesia experimental. Só acredito em poeta experimental que tem vivência experimental'
ÉPOCA - Hoje você é um homem...
Piva - ...assustado. Essa corrupção do Partido dos Trabalhadores. Nunca votei no PT (ele se define um anarquista de direita, ou um anarco-monarquista). Nunca avalizei a aliança do PT com aquele criminoso de Cuba, o Fidel Castro, o homem da justiça sumária, do paredón. Infelizmente, a ideologia marxista e petista alugou nossas cabeças durante muito tempo. Mas o Muro de Berlim está caindo. Completamente. Para quem gosta de natureza-morta, a esquerda é um prato cheio. Espero, como ansiava o (dramaturgo) Nélson Rodrigues, que desapareça o último idiota de esquerda...
ÉPOCA - E os idiotas de direita?
Piva - A direita também são eles. Quem se aliou aos bancos, aos conservadores, ao Severino Cavalcanti? Não creio em maniqueísmos. Esquerda. Direita. Sou cidadão do mundo. Tenho influência de todos os poetas planetários.
ÉPOCA - Você se considera um poeta à margem?
Piva - Agora, não. O fato de ser publicado por uma grande editora, por exemplo, atesta isso. Para mim, a publicação das obras reunidas é o começo de uma nova fase. Quem sabe virão mais leitores. Se isso ocorrer, ocorrerá sem que eu tenha feito qualquer concessão. Eu não me marginalizei. Fui marginalizado. É diferente. Sempre me insurgi contra a mecanização da poesia, contra as academias, contra uma certa poesia experimental que de experimental pouco tinha. Só acredito em poeta experimental que tenha vida experimental. Minha obra, devedora de Dante, da poesia romântica alemã, do surrealismo, dos beats, com uma enorme influência das artes plásticas, nunca saiu de sua proposição. Sou um poeta olímpico. Não abri mão de nada para ser aceito, e, como (Allen) Ginsberg, posso dizer que fui fiel a minha opção de vida. Sem transigir.
ÉPOCA - Você acompanha a produção poética atual?
Piva - Não comento a poesia de hoje. Tem muita gente fazendo poesia. Mas gosto de saber que há vários caminhos, e não uma ou duas propostas monopolistas. Gosto da diversidade do mundo. Bem ao contrário da linha de montagem que tentaram impor à poesia brasileira. Antes, bem antes, que essa postura repetitiva da sociedade industrial tivesse praticamente dominado a atividade poética por aqui, já Charles Chaplin, em Tempos Modernos, submeteu-a a uma crítica impiedosa.
ÉPOCA - Você fala do concretismo?
Piva - (silêncio) Não me interessa!
FONTE: http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,,EPT1061677-1661,00.html
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 4:39 PM Comments:
ODE A FERNANDO PESSOA
Roberto Piva
O rádio toca Stravinsky para homens surdos e eu recomponho na minha imaginação
a tua vida triste passada em Lisboa.
Ó Mestre da plenitude da Vida cavalgada em Emoções,
Eu e meus amigos te saudamos!
Onde estarás sentindo agora?
Eu te chamo do meio da multidão com minha voz arrebatada,
A ti, que és também Caeiro, Reis, Tu-mesmo, mas é como Campos que vou
saudar-te, e sei que não ficarás sentido por isso.
Quero oferecer-te o palpitar dos meus dias e noites,
A ti, que escutaste tudo quanto se passou no universo,
Grande Aventureiro do Desconhecido, o canto que me ensinaste foi de libertação.
Quando leio teus poemas, alastra-se pela minh'alma dentro um comichão de
saudade da Grande Vida,
Da Grande Vida batida de sol dos trópicos,
Da Grande Vida de aventuras marítimas salpicada de crimes,
Da grande vida dos piratas, Césares do Mar Antigo.
Teus poemas são gritos alegras de Posse,
Vibração nascida com o Mundo, diálogos contínuos com a Morte,
Amor feito a força com toda Terra.
Sempre levo teus poemas na alma e todos os meus amigos fazem o mesmo.
Sei que não sofres fisicamente pelos que estão doentes de Saudade, mas de
Madrugada; quando exaustos nos sentamos nas praças, Tu estás conosco, eu
sei disso, e te respiramos na brisa.
Quero que venhas compartilhar conosco as orgias da meia-noite, queremos ser
para ti mais do que para o resto do mundo.
Fernando Pessoa, Grande Mestre, em que direção aponta tua loucura esta noite?
Que paisagens são estas?
Quem são estes descabelados com gestos de bailarinos?
Vamos, o subúrbio da cidade espera nossa aventura,
As meninas já abandonaram o sono das famílias,
Adolescentes iletrados nos esperam nos parques.
Vamos com o vento nas folhagens, pelos planetas, cavalgando vaga-lumes cegos até o Infinito.
Nós, tenebrosos vagabundos de São Paulo, te ofertamos em turíbulo para uma
bacanal em espuma e fúria.
Quero violar todas as superfícies e todos os homens da superfície, Vamos viver para além da burguesia triste que domina meu país alegremente
Antropófago.
Todos os desconhecidos se aproximam de nós.
Ah, vamos girar juntos pela cidade, não importa o que faças ou quem sejas, eu te
abraço, vamos!
Alimentar o resto da vida com uma hora de loucura, mandar à merda todos os deveres, chutar os padres quando passarmos por eles nas ruas, amar os
pederastas pelo simples prazer de traí-los depois,
Amar livremente mulheres, adolescentes, desobedecer integralmente uma ordem
por cumprir, numa orgia insaciável e insaciada de todos os propósitos-
Sombra.
Em mim e em Ti todos os ritmos da alma humana, todos os risos, todos os olhares,
todos os passos, os crimes, as fugas, Todos os êxtases sentidos de uma vez,
Todas as vidas vividas num minuto Completo e Eterno,
Eu e Tu, Toda a Vida!
Fernando, vamos ler Kierkegaard e Nietzsche no Jardim Trianon pela manhã,
enquanto as crianças brincam na gangorra ao lado.
Vamos percorrer as vielas do centro aos domingos quando toda a gente decente
dorme, e só adolescentes bêbados e putas encontram-se na noite.
Tu, todas as crianças vivazes e sonolentas,
Carícia obscena que o rapazito de olheiras fez ao companheiro de classe e o
professor não vê;
Tu, o Ampliado, latitude-longitude, Portugal África Brasil Angola Lisboa São
Paulo e o resto do mundo,
Abraçado com Sá-Carneiro pela Rua do Ouro acima, de mãos dadas com Mário de Andrade no Largo do Arouche.
Tu, o rumor dos planaltos, tumulto do tráfego na hora do ¿rush¿, repique dos
sinos de São Bento, hora tristonha do entardecer visto do Viaduto do Chá,
Digo em sussurro teus poemas ao ouvido do Brasil, adolescente moreno empinando papagaios na América.
Vamos ver a luz da Aurora chispando nas janelas dos edifícios, escorrendo pelas
águas do Amazonas, batendo em chapa na caatinga nordestina, debruçando
no Corcovado,
Ouçamos a bossa-nova deitados na palma da mão do Cristo e a batucada vinda
diretamente do coração do morro.
Tu, a selvagem inocência nos beijos dos que se amam,
Tu o desengajado, o repentino, o livre.
Agora, vem comigo ao Bar, e beberemos de tudo nunca passando pela caixa,
Vamos ao Brás beber vinho e comer pizza no Lucas, para depois vomitarmos
tudo de cima da ponte,
Vem comigo, eu te mostrarei tudo: o Largo do Arouche à tarde, o Jardim da Luz
pela manhã, veremos os bondes gingando nos trilhos da Avenida, assaltaremos o Fasano, iremos ver ¿as luzes do Cambuci pelas noites de crime¿,
onde está a menina-moça violada por nós num dia de Chuva e Tédio,
Não te levarei ao Paissandu para não acordarmos o sexo do Mário de Andrade
(ai de nós se ele desperta!),
Mas vamos respirar a Noite do alto da Serra do Mar: quero ver as estrelas refletidas
em teus olhos.
Sobre as crianças que dormem, tuas palavras dormem; eu deles me aproximo e
dou-lhes um beijo familiar na face direita.
Teu canto para mim foi música de redenção,
Para tudo e todos a recíproca atração de Alma e Corpo.
Doce intermediário entre nós e a minha maneira predileta de pecar.
Descartes tomando banho-maria, penso, logo minto, na cidade futura, industrial
e inútil.
Mundo, fruto amadurecido em meus braços arqueados de te embalar,
Resumirei para Ti a minha história:
Venho aos trambolhões pelos séculos,
Encarno todos os fora da lei e todos os desajustados,
Não existe um gangster juvenil preso por roubo e nenhum louco sexual que eu
não acompanhe para ser julgado e condenado;
Desconheço exame de consciência, nunca tive remorsos, sou como um lobo
dissonante nas lonjuras de Deus.
Os que me amam dançam nas sepulturas.
Da vidraça aberta olho as estrelas disseminadas no céu; onde estás, Mestre Fernando?
Foste levar a desobediência aos aplicados meninos do Jardim América?
Dás um lírio para quem fugir de casa?
Grande indisciplinador, é verdade?
Vamos ao norte amar as coisas divinamente rudes.
Vamos lá, Fernando, dançar maxixe na Bahia e beber cerveja até cair com um
baque surdo no centro da Cidade Baixa.
Sabes que há mais vida num beco da Bahia ou num morro carioca do que em
toda São Paulo?
São Paulo, cidade minha, até quando serás o convento do Brasil?
Até teus comunistas são mais puritanos do que padres.
Pardos burocratas de São Paulo, vamos fugir para as praias?
Ó cidade das sempiternas mesmices, quando te racharás ao meio?
Quero cuspir no olho do teu Governador e queimar os troncos medrosos da floresta
humana.
Ó Faculdade de Direito, antro de cavalgaduras eloqüentes da masturbação transferida!
Ó mocidade sufocada nas Igrejas, vamos ao ar puro das manhãs de setembro!
Ó maior parque industrial do Brasil, quando limparei minha bunda em ti?
Fornalha do meu Tédio transbordando até o Espasmo.
Horda de bugres galopando a minha raiva!
Sei que não há horizontes para a minha inquietação sem nexo,
Não me limitem, mercadores!
Quero estar livre no meio do Dilúvio!
Quero beber todos os delírios e todas as loucuras, mais profundamente que
qualquer Deus!
Põe-te daqui para fora, policiamento familiar da alma dos fortes: eu quero ser
como um raio para vós!
Violência sincopada de todos os ¿boxeurs¿!
Brasileira do Chiado em dias de porre de absinto.
Arcabouço de todas as náuseas da vida levada em carícias de Infinito.
Tudo dói na tua alma, Nando, tudo te penetra, e eu sinto contigo o íntimo tédio
de tudo.
Realizarei todos os teus poemas, imaginando como eu seria feliz se pudesse estar
contigo e ser tua Sombra.
METEORO
Roberto Piva
Eu direi as palavras mais terríveis esta noite
enquanto os ponteiros se dissolvem
contra o meu poder
contra o meu amor
no sobressalto da minha mente
meus olhos dançam
no alto da Lapa os mosquitos me sufocam
que me importa saber se as mulheres são
férteis se Deus caiu no mar se
Kierkegaard pede socorro numa montanha
da Dinamarca?
os telefones gritam
isoladas criaturas caem no nada
os órgãos de carne falam morte
morte doce carnaval de rua do
fim do mundo
eu não quero elegias mas sim os lírios
de ferro dos recintos
há uma epopéia nas roupas penduradas contra
o céu cinza
e os luminosos me fitam do espaço alucinado
quantos lindos garotos eu não vi sob esta luz?
eu urrava meio louco meio estarrado meio fendido
narcóticos sntos ó gato azul da minha mente
Oh Antonin Artaud
Oh Garcia Lorca
com seus olhos de aborto reduzidos
a retratos
almas
almas
como icebergs
como velas
como manequins mecânicos
e o clímax fraudulento dos sanduíches almoços
sorvetes controles ansiedades
eu preciso cortar os cabelos da minha alma
eu preciso tomar colheradas de
Morte Absoluta
eu não enxergo mais nada
meu crânio diz que estou embriagado
suplícios genuflexões neuroses
psicanalistas espetando meu pobre
esqueleto em férias
eu apertava uma árvore contra meu peito
como se fosse um anjo
meus amores começam crescer
passam cadillacs sem sangue os helicópteros
mugem
minha alma minha canção bolsos abertos
da minha mente
eu sou uma alucinação na ponta de teus olhos
A CORÉIA É NA ESQUINA
Roberto Piva
Assim não dá meu tesão
eu começo a sonhar com você todas as tardes
& você lá em Santos
comendo amendoim
vendo anjos nas cebolas do mercado
navios entram e saem do porto polidos
eu corto as veias & rego meu queijo de Minas
você me ama eu sei & me envaideço
amoras jorram a beleza anarquista de suas
coxas molhadas
o peixe-espada pode lhe declarar amor
eu penso nessas ilhas perfumadas
mas o caminho de volta eu só conto
a este urubu em carne viva
que grasna na sacada.
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 4:32 PM Comments:
LISTA DE PRESENTES DE ANIVERSÁRIO
Por insistencia de muitas pessoas que estão pensando em me dar presente de aniversário, dia 28/02, estou postando aqui uma lista de "possibilidades". Espero que ajude um pouco!
1. Camisas de microfibra de manga curta (de preferencia branca, pois já tenho um bocado de várias cores, mas nenhuma branca)
2. Camisas de poliester da marca ADMISSION, de preferência de cores escuras ou "vibrantes" e com estampas fashion (são literalmente BBB: boas, bonitas e BARATAS!) - encontradas na RIACHUELO. (Não uso roupas de grife!)
3. Revistas dos Encontros Goianos de Gestalt-Terapia (ver dois posts abaixo) - os primeiros 7 volumes estão custando R$ 18,00 cada (R$15,00 + R$3 de postagem) - para adquirí-las, falar com
itgt@itgt.com.br
4. Revistas de Gestalt, do Instituto Sedes Sapientae - volumes 4 a 9 estão por R$ 19,00 cada (R$ 15,00 + R$ 4,00 de postagem) - para adquirí-las, falar com
secretaria@sedes.org.br
(OK)
5. Cinema e ajustamentos criativos, CALVO, Cristiane / ODDONE, Ramon Barbosa / NASCIMENTO, Maria Rosalia do. LIVRO PLENO, R$ 26,00 - Encontrado apenas no site da Livraria Cultura.
6. O viajante solitário - Jack Kerouac , L&PM Pocket , R$ 16,00
7. On the road - Jack Kerouac , L&PM Pocket, R$ 19,50
(OK)
8. Androginia - SINGER, June. CULTRIX, R$ 32,00 - Esgotado, mas encontra-se um último volume na CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA do Shopping Barra, na sessão de Psicologia.
9. CDs de Adriana Calcanhoto, exceto o MARÍTMO, o SENHAS e o A FABRICA DO POEMA, que eu já tenho.
10. CDs de Caetano Veloso , exceto o FINA ESTAMPA (AO VIVO) e os das coleções Millennium e Gold.
11. O CD Meds, do Placebo, mas só vai ser lançado em março, e eu quero comprá-lo, mesmo que para isso tenha de me prostituir!
12. Antologia dos Novíssimos ,1961, Massao Ohno, R$ 56,00. (Essa antologia tem poemas inéditos de Roberto Piva) - É muito cara e já descartei a possibilidade de vir a comprá-la. Mas, como sou um masoquista, registro aqui minha condição de "castrado". Encontrado no site do Sebo MOBILE (www.mobilelivros.com.br)
13. 26 Poetas Hoje, Heloisa Buarque de Hollanda, R$ 16,00 (+ R$ 3,00 de frete) - (coletânea contendo poemas de Roberto Piva, não sei quais!) - encontrado no site do Mercado Livre (www.mercadolivre.com.br)
Para os presentes mais caros, aconselho que façam vaquinha, mutirão ou coisa parecida, ou, optem pelas camisas de microfibra mesmo que eu gosto e tô precisando. Hehehehehehe. (até parece que vou receber tanto presente assim! ;P
Um grande abraço a todos,
Luiz Fernando
PS.: Isso só me lembra as listas de presentes de Thales de Azevedo, de quando eu ainda trabalhava no acervo particular dele.
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 2:43 PM Comments:
Quarta-feira, Fevereiro 08, 2006
ENCONTRO E SILÊNCIO
Com você , perdi-me das idéias e fiz-me carne
- corpo em ebulição, pulsão e suor.
Gotejando minha alma em materialidade
Tornando-me humano e temporal
Assim, meu silêncio se transforma em desespero
de não ouvir o suspiro forte e ritmado
seu olhar transpassando meu corpo transparente
Eu imerso em ti, debruçando-me num beijo.
Sem você, os instantes deixam de fluir,
como deslisam no eterno fluxo de seus beijos.
Sou mais finito na solidão e eterno no encontro
com seu corpo, sua alma, no agora sem fim.
Amo. E o amor é espaço aberto.
Para o hoje, o agora, o eterno e o indizível.
Palavras perdidas de mim.
Eu real, em carne, sangue e desejo.
(Simplesmente humano,
- eu em meu reflexo.)
(L. F. Calaça | 08/02/2006)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 6:37 PM Comments:
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 10:46 AM Comments: